Depois de quase quinze anos de batente, subindo e descendo ladeiras, conversando com gente de todo tipo e cavando informação onde ela teima em se esconder, a gente aprende uma coisa ou outra sobre o que funciona e o que é puro oba-oba. E, cá entre nós, poucas coisas têm causado tanto burburinho ultimamente quanto a tal da melatonina. Promessa de sono tranquilo, fim da insônia, vida nova. Mas será que é tudo isso mesmo? Ou estamos diante de mais uma daquelas ondas que chegam com tudo e depois se desfazem como espuma na beira da praia?
Melatonina: O Hormônio do Sono ou a Nova Moda?
De repente, a melatonina virou a estrela da farmácia. Antes restrita ao receituário médico em muitos lugares, hoje, no Brasil, a gente encontra em qualquer canto, como se fosse vitamina C. Mas vamos colocar os pingos nos “is”: a melatonina não é uma vitamina. É um hormônio. Um hormônio produzido naturalmente pelo nosso corpo, lá na glândula pineal, que tem a função de regular o nosso relógio biológico. Ou, como a gente diz no popular, avisar o corpo que a noite chegou e que é hora de ir diminuindo o ritmo para dormir.
E é justamente essa característica que fez dela a “queridinha” de quem sofre para pegar no sono. A ideia é simples: se o corpo não produz o suficiente, ou se o ritmo está bagunçado (por conta de jet lag, trabalho noturno, ou mesmo a luz azul das telas que nos bombardeia sem parar), um empurrãozinho de melatonina extra resolveria a parada. Na teoria, faz sentido. Na prática, a coisa é sempre mais embaixo.
A Corrida ao “Remédio Milagroso” e a Realidade Científica
Você conversa com um vizinho, com a moça da padaria, e parece que todo mundo tem uma história de sucesso com a melatonina. “Ah, foi só tomar que eu apaguei!”, dizem. Mas um bom jornalista sabe que depoimento isolado não faz ciência. Por isso, a gente foi buscar o que os estudos sérios, com métodos rigorosos, realmente mostram. E a verdade é que o cenário é mais matizado do que muita gente por aí gostaria de admitir.
Para casos específicos, como o já citado jet lag (aquele descompasso depois de uma viagem longa com fuso horário diferente) ou em algumas pessoas com distúrbios de sono relacionados ao ciclo circadiano (o tal do relógio biológico), a melatonina pode, sim, ajudar. E ajuda um bocado. O sono chega mais rápido, a qualidade melhora um pouco. Mas para a insônia crônica, aquela que atormenta milhões de brasileiros todas as noites, os resultados são, digamos, mais modestos. “Olha, ela não é uma bala mágica para todo mundo. O mecanismo dela é mais de sinalização para o corpo entender que é noite, do que um sedativo potente. Em muitos casos, a insônia tem causas mais profundas, psicológicas ou outras condições de saúde”, explica a Dra. Ana Lúcia, neurologista renomada que topou conversar conosco entre um paciente e outro.
É aí que mora o perigo da automedicação e do marketing desenfreado. Muita gente compra melatonina achando que vai resolver tudo, sem procurar a raiz do problema. E o buraco é mais embaixo. Tratar insônia é um trabalho de investigação, de mudança de hábitos, e muitas vezes, sim, de medicação específica, mas sempre com acompanhamento. Não é uma pílula que resolve tudo.
Uso Comum / Expectativa | O Que a Ciência Diz (Até Agora) |
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Insônia Crônica (dificuldade para dormir a longo prazo) | Benefícios modestos, não é a solução para todos. Melhor para problemas de ciclo circadiano. |
Jet Lag (desajuste por fuso horário) | Eficaz para ajudar a ajustar o relógio biológico e reduzir sintomas. |
Trabalho em Turnos (noturno, irregular) | Pode auxiliar na melhora do sono em trabalhadores com horários alterados. |
Distúrbios de Sono em Crianças (com acompanhamento) | Em casos específicos (TEA, TDAH), sob orientação médica, pode ser considerada. |
Efeitos Antienvelhecimento / Imunidade | Evidências limitadas e inconclusivas. Uso não recomendado para essas finalidades. |
Dose Certa, Efeitos Colaterais e a Lei do Mercado
Outro ponto que levanta a sobrancelha de quem vive de apurar os fatos é a dosagem. Nos Estados Unidos, por exemplo, onde a melatonina é vendida como suplemento alimentar, você encontra doses que variam de 1mg a 10mg, ou até mais. No Brasil, a Anvisa liberou doses mais controladas, até 0,21 mg, entendendo que doses maiores demandam outra abordagem. Mas o que isso significa na prática? Que não é porque a embalagem é bonita e a promessa é tentadora que você pode sair tomando a torto e a direito.
Efeitos colaterais existem, embora geralmente leves. Dor de cabeça, tontura, náuseas, sonolência diurna excessiva. Nada que vire o mundo de cabeça para baixo, mas o suficiente para atrapalhar o dia a dia. Pior: pode interagir com outros medicamentos, como anticoagulantes, remédios para pressão alta ou para diabetes. “A pessoa que tem uma doença crônica, que já toma remédio controlado, não pode simplesmente adicionar a melatonina por conta própria. Pode dar zebra, entende? O corpo não é uma máquina de adivinhar”, alerta um farmacêutico amigo, que prefere não ter o nome divulgado, preocupado com a banalização do uso.
A lição que fica, para quem escreve e para quem lê, é que não existe atalho para um sono de qualidade. A melatonina pode ser uma ferramenta útil, sim, um empurrãozinho para alguns. Mas ela não substitui a higiene do sono – aquele conjunto de hábitos que incluem deitar e levantar na mesma hora, ter um quarto escuro e silencioso, evitar telas antes de dormir, e uma série de outras coisas que a gente sabe que funcionam, mas vive adiando.
O Básico Que Funciona: O Que Fazer Para Dormir Melhor
Antes de correr para a prateleira da farmácia atrás da melatonina, que tal tentar o básico? Acredite, para muitos, funciona. E não custa nada.
- Estabeleça uma Rotina: Vá para a cama e acorde no mesmo horário, inclusive nos fins de semana. Seu corpo agradece o ritmo.
- Crie um Santuário do Sono: Seu quarto deve ser escuro, silencioso e com temperatura agradável. Invista em cortinas blackout, protetores auriculares se necessário.
- Desligue as Telas: Pelo menos uma hora antes de dormir, largue o celular, tablet e computador. A luz azul engana seu cérebro e atrapalha a produção natural de melatonina.
- Cuidado com a Comida e a Bebida: Evite cafeína e álcool perto da hora de dormir. Refeições pesadas também não são amigas do sono.
- Exercite-se Regularmente: Mas não muito perto da hora de deitar. A atividade física durante o dia ajuda a regular o sono à noite.
- Gerencie o Estresse: Técnicas de relaxamento, meditação ou até um bom livro podem acalmar a mente antes de dormir.
No fim das contas, a melatonina é mais um recurso, não a solução definitiva. E como todo recurso que mexe com o corpo, exige respeito e, preferencialmente, orientação profissional. Não custa lembrar que a sua saúde, e o seu sono, são coisas sérias demais para ficarem à mercê de promessas milagrosas sem lastro. Consulte um médico. Converse com um profissional. É o melhor investimento que você pode fazer.
Este artigo foi elaborado por um jornalista com experiência de campo e anos de dedicação à apuração dos fatos, com o objetivo de trazer clareza e informação relevante ao público.
FAQ – Perguntas e Respostas Frequentes Sobre Melatonina
1. Melatonina é um remédio ou um suplemento?
No Brasil, a melatonina é regulamentada pela Anvisa como um suplemento alimentar, desde que em doses específicas (até 0,21 mg). Em doses maiores ou com finalidade terapêutica específica, é considerada um medicamento e requer prescrição médica em alguns países.
2. Qualquer pessoa pode tomar melatonina?
Não. Apesar de ser um suplemento, seu uso não é recomendado para gestantes, lactantes, crianças (a não ser sob estrita orientação médica para casos muito específicos), pessoas com doenças autoimunes ou que utilizam medicamentos contínuos sem antes consultar um médico. A automedicação pode ser perigosa.
3. A melatonina causa dependência?
Até o momento, não há evidências científicas sólidas que comprovem que o uso de melatonina cause dependência física. No entanto, o uso prolongado e indiscriminado pode levar a uma “dependência psicológica” ou a uma desregulação da produção natural do hormônio pelo corpo, caso não haja necessidade real.
4. Quanto tempo leva para a melatonina fazer efeito?
Geralmente, a melatonina começa a fazer efeito entre 30 minutos a 1 hora após a ingestão, preparando o corpo para o sono. O tempo exato pode variar de pessoa para pessoa e da formulação do produto.
5. Posso tomar melatonina todos os dias?
O uso diário deve ser avaliado por um profissional de saúde. Embora seja considerada segura para uso de curto prazo em doses baixas, o uso contínuo e a longo prazo, especialmente em doses mais altas, ainda carece de estudos mais abrangentes sobre seus efeitos e segurança. É fundamental conversar com seu médico para entender a real necessidade e duração do tratamento.
Fonte: G1 – Melatonina: o que é, para que serve e quais os riscos do uso excessivo